quinta-feira, 15 de março de 2012

Barrabás





NO. 595
Um sermão pregado na manhã de Domingo de 16 de Outubro, 1864
Por Charles Haddon Spurgeon
No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.

“Então todos tornaram a clamar dizendo: Este não, mas Barrabás. E Barrabás era ladrão” João 18:40.
O costume de soltar um prisioneiro no dia da Páscoa tinha, sem dúvida, o propósito de ser um ato de graça da parte das autoridades romanas para com os judeus, e pelos judeus poderia ser aceito como um ato atencioso pelo motivo de sua Páscoa. Posto que nesta data eles mesmos foram tirados da terra do Egito, poderiam considerar que era sumamente conveniente que algum prisioneiro obtivesse sua liberdade.
Todavia, não havia nenhuma provisão para isto na Escritura; não havia sido ordenado por Deus, e sem dúvida, deve ter gerado algum efeito pernicioso para a justiça pública, que a autoridade governante soltasse um criminoso, sem tomar em conta seus crimes ou seu arrependimento: o deixavam em liberdade na sociedade simples e exclusivamente pelo fato de que um certo dia deveria ser celebrado de uma maneira peculiar.
Posto que algum prisioneiro deveria ser solto no dia da Páscoa, Pilatos pensa que agora tem uma oportunidade de permitir que o Salvador escape sem necessidade de comprometer em absoluto sua reputação diante das autoridades de Roma. Pilatos pergunta ao povo a qual dos dois prefere dar a sua liberdade, a um notório ladrão que se encontrava até então sob custódia, ou ao Salvador.
É provável que Barrabás fosse detestável para a multidão até esse momento; e contudo, apesar de sua anterior antipatia, a turba, instigada pelos sacerdotes, esquece todas as suas culpas, e prefere a ele em lugar do Salvador.
Não podemos saber exatamente quem era Barrabás. Seu nome, como o entenderão em um momento, ainda que não tenham o menor conhecimento do hebraico, significa: “filho de pai”. “Bar” significa “filho”, como quando Pedro é chamado Simão Barjonas, filho de Jonas; e a outra parte de seu nome: “Abbas”, que significa “pai”. “Abbas” é a palavra que nós usamos em nossas aspirações de filhos: “Abba, Pai!”
Então, Barrabás é o “filho de seu pai”; e algumas pessoas propensas ao misticismo opinam que há aqui uma imputação de que era particular e especialmente um filho de Satanás. Outros conjecturam que é um nome de carinho, que lhe foi dado porque era o preferido de seu pai, uma criança mimada; o filho do papai, como costumamos dizer; e estes escritores agregam que as crianças mimadas muitas vezes se tornam imitadoras de Barrabás, e são as pessoas mais propensas a tornarem-se daninhas para o seu país, e se convertem em aflições para seus pais, e maldições para todos os que as rodeiam. Se assim fosse, tomando este caso em conexão com o caso de Absalão, e especialmente o dos filhos de Elí, é uma advertência para os pais para que não errem esbanjando uma excessiva clemência a seus filhos.
Nos parece que Barrabás cometeu pelo menos três crimes: foi encarcerado por homicídio, por sedição e por rebelião, que constituíam certamente uma lamentável combinação de ofensas; facilmente poderíamos sentir piedade pelo progenitor de tal filho.
Este infeliz é apresentado e é posto a competir contra Cristo. Se apela à turba. Pilatos crê que por causa do sentido de vergonha, realmente seria impossível que preferissem a Barrabás; mas eles estão tão sedentos de sangue contra o Salvador, e estão tão influenciados pelos sacerdotes que, em uníssono – não parecia que houvesse nem uma só voz que se opusesse, nem uma mão que se alçasse em contra – com uma surpreendente unanimidade de maldade, eles gritam: “Não a este, senão a Barrabás”, ainda que soubessem – pois ele era um notável ofensor bem conhecido – que Barrabás era um assassino, um canalha e um traidor.
Este fato é muito significativo. Há mais ensinamento nele do que à simples vista poderíamos imaginar. Não temos aqui, antes de mais nada, neste ato de liberar ao pecador e de condenar ao inocente, uma espécie de tipo dessa grandiosa obra que é realizada pela morte do nosso Salvador? Nós poderíamos de forma muito justa pararmos ao lado de Barrabás. Temos roubado de Deus a Sua glória; temos agido como sediciosos traidores contra o governo do céu: se todo aquele que aborrece a seu irmão é homicida, nós também somos culpáveis desse pecado. Aqui estamos diante do tribunal; o Príncipe da Vida está atado por nossa causa e não se nos permite que saiamos livres. Deus nos liberta e nos absolve, enquanto o Salvador, sem mancha nem pecado, nem sequer com uma sombra de uma falta, é conduzido à crucificação.
Duas aves eram tomadas no ritual de limpeza de um leproso. Uma ave era sacrificada, e seu sangue era derramado em um vaso de barro; a outra ave era molhada neste sangue, e logo, com suas asas avermelhadas, era deixada em liberdade para que voasse no campo. A ave morta retrata bem ao Salvador, e cada alma que por fé foi submersa em Seu sangue, voa ao alto, até o céu, cantando docemente no gozo da liberdade, devendo sua vida e sua liberdade inteiramente a Ele, que foi imolado.
Se reduz a isto: Barrabás deve morrer ou Cristo deve morrer; tu, pecador, deves morrer, ou Cristo Emanuel, o Imaculado, deve morrer. Ele morre para que nós sejamos postos em liberdade.
Oh! Nós temos uma participação nesta salvação hoje? E ainda que tenhamos sido ladrões, traidores e homicidas, podemos regozijar porque Cristo nos libertou da maldição da lei, havendo sido feito maldição por nós!
A transação tem todavia outra voz. Este episódio da história do Salvador mostra que ao juízo do povo, Jesus Cristo era um maior ofensor do que Barrabás; e por uma só vez posso aventurar-me a dizer que a vox populi (a voz do povo), que em si mesma foi à mais infame injustiça – se lermos à luz da imputação dos nossos pecados a Cristo – foi a vox Dei (a voz de Deus). Quando Cristo esteve coberto com os pecados de Seu povo, teve mais pecados postos sobre Ele do que os que descansavam sobre Barrabás. Não há pecado nEle, Ele era completamente incapaz de converter-se em um pecador: santo, inocente e puro é Cristo Jesus, mas Ele assume a carga inteira da culpa de Seu povo sobre Si mesmo por imputação, e quando Jeová o vê, vê mais culpa posta sobre o Salvador do que a culpa que está sobre este atroz pecador, Barrabás. Barrabás sai livre, inocente, em comparação com o tremendo peso que repousa sobre o Salvador. Pensem então, amados, quão baixo se abateu seu Deus e Senhor para ser assim contado com os iníquos. Watts expressou energicamente, mas me parece que não demasiadamente enérgico:
“Sua honra e Seu alento
Ambos lhe foram arrebatados,
Em Sua morte foi unido aos malvados,
E foi envilecido como eles.”

Ele era tudo isso na estima do povo e diante do tribunal de justiça, pois os pecados de toda a companhia dos fiéis foram postos sobre Ele. “Jeová levou nele o pecado de todos nós.” Nenhum coração poderia conceber quanta terá sido essa iniquidade, nem nenhuma língua poderia dizê-lo. Meçam pelas dores que suportou, e então, se puderem adivinhar quais foram essas dores, será possível formar alguma idéia de qual haverá sido a culpa que o abateu diante do tribunal de justiça abaixo do próprio Barrabás. Oh! Quanta condescendência há aqui! O justo morre pelos injustos. Ele leva o pecado de muitos, e ora pelos transgressores.
Ademais, me parece que há uma terceira lição, antes de passar para a parte do texto que quero enfatizar. Nosso Salvador sabia que Seus discípulos seriam odiados pelo mundo muito mais do que os notórios pecadores de todas as épocas. Muitas vezes o mundo esteve mais disposto a tolerar aos homicidas, aos ladrões e aos bêbados do que aos cristãos; e retribuiu a alguns dos melhores e mais santos homens de forma que foram tão caluniados e abusados, que seus nomes foram eliminados como um sinônimo de depravação, indignos de serem inscritos na mesma lista com os criminosos.
Agora, Cristo santificou estes sofrimentos de Seu povo da calúnia de seus inimigos, suportando Ele mesmo precisamente esses sofrimentos, de tal maneira que, irmãos meus, se vocês ou eu fôssemos acusados de crimes que aborrecemos, e se nosso coração estivesse a ponto de estourar debaixo do peso da acumulação do veneno da calúnia, poderíamos levantar nossas cabeças e sentir que em tudo isto contamos com um companheiro que tem a verdadeira comunhão conosco, o Senhor Jesus Cristo, que foi rejeitado quando Barrabás foi escolhido.
Não esperem um melhor tratamento que o Seu Senhor. Recordem que o discípulo não é maior que seu Mestre. Se ao pai de família chamaram Belzebu, quanto mais aos de sua casa? E se preferem o homicida ao invés de Cristo, pode não estar distante o dia em que preferirão um assassino ao invés de ti.
Me parece que estas coisas jazem na superfície; agora chego ao nosso tema mais imediato, Primeiro, consideraremos ao pecado segundo está na história evangélica; em segundo lugar, observaremos que este é o pecado de todo o mundo; em terceiro lugar, que nós mesmos fomos culpáveis deste pecado antes de nossa conversão; e em quarto lugar, que este é, assim o tememos, o pecado de muitíssimas pessoas que estão presentes aqui nesta manhã: falaremos com elas e contenderemos, pedindo que o Espírito de Deus transforme seus corações e os conduza a aceitar ao Salvador.

I. Então, poderia ser útil passar uns quantos minutos CONSIDERANDO O PECADO CONFORME O ENCONTRAMOS NESTA HISTÓRIA.
Eles preferiram a Barrabás e não a Cristo. O pecado será visto mais claramente, se recordarmos que o Salvador não havia feito nenhum mal. Ele não havia quebrantado nenhuma lei de Deus ou de homem. Ele poderia ter utilizado em verdade palavras de Samuel: “Aqui estou: atestem contra mim diante de Jeová e diante de seu ungido, se tomei o boi de alguém, se tomei o asno de alguém, se caluniei a alguém, se agravei a alguém, ou se de alguém tomei suborno para cegar meus olhos com ele; e eu os restituirei”.
Dentro de toda essa multidão reunida, não havia ninguém com a presunção de acusar ao Salvador de lhe ter feito algum dano. Longe disso, não podiam senão reconhecer que Ele lhes havia conferido grandes bênçãos temporais. Oh, multidão voraz, acaso não te alimentou quando estavas faminta? Acaso não multiplicou os pães e os peixes para ti? Não curou aos leprosos com Sua mão? Não lançou fora de seus filhos e filhas aos demônios? Não fez andar seus paralíticos? Não lhes deu vista a seus cegos e não abriu os ouvidos de seus surdos? Por quais destas boas obras conspiram para matar-lhe?
Em meio desta multidão congregada havia alguns, sem dúvida, que lhe deviam bênçãos inestimáveis, e contudo, ainda que todos eles soubessem que eram Seus devedores, clamavam contra Ele como se fosse o pior problema de suas vidas, uma praga ou uma peste para o lugar em que habita.

Acaso era de Seu ensinamento de que se queixavam? Em qual ponto de Seu ensinamento ofendia a moralidade? Em qual ponto ia contra aos melhores interesses do homem? Se vocês observam o ensinamento de Cristo, nunca houve nada semelhante, incluso se é julgado quanto ao alcance de sua promoção do bem-estar humano. Aqui estava a essência e substância de Sua doutrina: “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração… e ao teu próximo como a ti mesmo”.
Seus preceitos eram da forma mais benigna. Acaso lhes ordenou que desembainhassem a espada e expulsassem aos romanos, ou que se lançassem em uma impiedosa carreira de carnificina e rapina? Acaso os estimulou para que soltassem as rédeas de suas desenfreadas paixões? Lhes disse que buscassem primeiro que nada sua própria vantagem e que não se preocupassem pelo bem-estar do vizinho?
Não, cada estado justo há de reconhecer-lhe como seu melhor pilar, e o ajuntamento da humanidade há de reconhecer-lhe como seu conservador; e contudo, apesar de tudo isto, ali os temos, oprimido por seus sacerdotes, buscando Seu sangue, e gritando: “Seja crucificado! Seja crucificado!”.

Evidentemente Seu único propósito era o bem deles. Para quê pregava? Nenhum motivo egoísta poderia ser argumentado. As raposas tinham tocas, e as aves do céu ninhos, mas Ele não tinha onde recostar Sua cabeça. A caridade de uns quantos discípulos foi a única forma que preveniu a fome absoluta. As frias montanhas e o ar da meia-noite foram testemunhas do fervor de Suas solitárias orações pelas multidões que agora o odiavam. Ele viveu para outros: eles podiam ver isto; não poderiam observá-lo durante os três anos de Seu ministério, sem dizer: “jamais viveu uma alma tão abnegada como esta”; eles deviam saber, a maioria deles, e o resto poderia ter sabido, se houvessem perguntado, ainda que fosse superficialmente, que Ele não tinha nenhum propósito de nenhum tipo para estar na terra, exceto o de buscar o bem dos homens.
Por qual destas coisas eles clamam para que seja crucificado? Por qual de Suas boas obras, por qual de Suas palavras generosas, por qual de Suas santas ações cravarão Suas mãos na tábua, e Seus pés no madeiro? Com ódio irracional, com insensível crueldade, a única resposta a pergunta de Pilatos: “Pois que mal há feito?”, Foi: “Seja crucificado! Seja crucificado!”
A verdadeira razão de seu ódio, sem dúvida, consistia no ódio natural de todos os homens à perfeita bondade. O homem sente que a presença do bem é um testemunho silencioso contra seu próprio pecado, e por isso anela se desfazer dele. Ser demasiado santo no juízo dos homens é um grande crime, pois censura seu pecado. Ainda que o santo não tenha o poder da palavra, contudo, sua vida é um ruidoso testemunho a favor de Deus contra os pecados de Suas criaturas.
Este protesto inconveniente conduz aos malvados a desejar a morte do Santo e do Justo. Ademais, os sacerdotes os respaldavam. Ainda que seja algo triste e lamentável, ocorre muitas vezes o caso de que as pessoas seja melhor que seus mestres religiosos. Neste momento presente os laicos da Igreja da Inglaterra, como um todo, têm consciências honestas, e gostariam que seu Livro de Oração fosse revisado amanhã mesmo se suas vozes pudessem ser escutadas. Mas aos seus clérigos lhes importa demasiadamente pouco a verdade, e não são muito escrupulosos como juram ou com quem se associam. Enquanto sua Igreja puder se manter unida, o padre Ignacio será escutado em suas assembleias, enquanto o chamado de Cristo à igreja para que se purifique, somente desperta ressentimento e má vontade. Não importa que as gargantas de certos clérigos sejam exercitadas em assobiar por um instante a aparição do audaz monge anglicano, ele é um deles, um irmão de sua própria ordem, e sua igreja é responsável por tudo o que ele faz. Deixem que eles saiam e se separem, e então saberemos que aborrecem este moderno papado; mas enquanto estiverem sentados na mesma assembleia e forem membros da mesma igreja, o pecado lhes pertence, e não cessaremos de denunciar tanto ao pecado como a eles. Se os clérigos evangélicos permanecem em comunhão com os papistas, agora que se manifestem a plenas cores, vou deixar de afirmar que violam suas consciências, mas me vou permitir duvidar que tenham uma consciência em absoluto.
Irmãos, todavia sucede que as pessoas seja melhor que seus mestres. Estas pessoas não haveriam crucificado a Cristo se os clérigos dessa época, os sacerdotes, os dotados ministros não houvessem gritado: “Seja crucificado!” Ele era o Dissidente, o herege, o cismático, o perturbador de Israel. Ele era o que clamava a alta voz contra das falhas da ordem estabelecida da sociedade. Ele era o que não podia ser reprimido, o ignoranteda Galiléia, que continuava clamando contra eles, o homem prejudicial, e por isso gritavam: “Seja crucificado! Seja crucificado! Qualquer castigo é suficientemente bom para o homem que fala acerca da necessidade de reformas, e advoga por mudanças nas regras estabelecidas.
Sem dúvida o suborno foi também usado neste caso. Acaso o rabi Simão não pagou a multidão? Acaso não havia uma esperança de um festejo depois que a Páscoa terminasse para aqueles que usaram suas gargantas contra o Salvador? Ademais, toda a multidão se havia lançado nessa direção; e se alguém tivesse compaixão, preferiria ficar calado. Dizem sempre que: “a prudência é a melhor parte da coragem”; e na verdade devem existir muitos homens valorosos, pois possuem a melhor parte da coragem que é a prudência. Se não se uniram nos gritos, ao menos não incomodariam aos outros, e assim não houve senão um só grito: “Morra! Morra! Não convêm que viva”.
Que concentrado escárnio se encontra neste versículo quarenta. Não dizem: “este Jesus”, pois não queriam manchar suas bocas com Seu nome, senão a este, “este demônio”, se vocês quiserem. A Barrabás outorgam o respeito de mencionar seu nome; mas “este”, a quem odeiam tanto, não se rebaixariam a mencioná-lo. Temos visto este grande pecado, então, como está na história.

II. Mas agora vejamos, em segundo lugar, COMO ESTE INCIDENTE EXPÕE O PECADO QUE TEM SIDO A CULPA DO MUNDO EM TODAS AS ÉPOCAS, E QUAL É A CULPA DO MUNDO AGORA.
Quando os apóstolos saíram a pregar o Evangelho, e a verdade se espalhou ao largo de muitos países, os imperadores romanos emitiram severos editos. Contra quem foram feitos estes editos? Acaso foram contra os malvados ofensores desses dias? É bem sabido que o Império Romano inteiro estava infestado de vícios de tal magnitude que a face da modéstia se ruborizaria ao escutar sua simples menção.
O primeiro capítulo da Epístola aos Romanos é um quadro gráfico resumido do estado da sociedade ao largo de todos os domínios romanos. Quando essas severas leis foram concebidas, por quê não foram proclamadas contra estes atrozes vícios? É pouco conveniente que os homens que são culpáveis de crimes tais como os que o apóstolo Paulo mencionou, fiquem sem castigo, mas eu não encontro editos contra essas coisas. Encontro que foram perdoados e pouco mencionados com censura e que mais bem a fogueira, os arrastões utilizando as patas de cavalos selvagens, a espada, a prisão, as torturas de todo tipo, contra quem vocês creem que eram usados? Contra os inocentes e humildes seguidores de Cristo, que distante de se defenderem, estavam dispostos a sofrer todas estas coisas, e se ofereciam como ovelhas para o matadouro, dispostas a suportar a faca do açougueiro.
O grito do mundo nas perseguições da Roma Imperial era: “Cristo não, mas os sodomitas, os assassinos e os ladrões sim; nós somos mais indulgentes com qualquer destes, mas não com Cristo; eliminemos da terra a Seus seguidores”. Logo o mundo mudou suas táticas, se tornou nominalmente cristão, e o Anticristo apareceu em toda a sua glória blasfema. O Papa de Roma se cingiu da tríplice coroa, e se autonomeou o Vigário de Cristo; logo entrou a abominação da adoração aos santos, aos anjos, às imagens e aos quadros; logo veio a missa, e não sei que outras coisas mais, de detestável erro, e o que disse o mundo? “O Papado para sempre!” Todo joelho se dobrou e cada cabeça se inclinou diante do soberano representante de Pedro em Roma. A igreja de Roma igualava em pecado a Barrabás; não, estou fazendo um elogio a Barrabás quando o menciono na mesma categoria com muitos dos papas, pois o caráter deles era imundo e negro do princípio ao fim, até o ponto que aqueles que supersticiosamente os consideravam infalíveis em seu ofício, não podiam defender seus caracteres pessoais.
O mundo escolheu a prostituta de Roma, e a que estava ébria com o vinho de sua abominação, tinha todos os olhares postos sobre ela com admiração, enquanto o Evangelho de Cristo era esquecido, sepultado em uns quantos livros velhos, ficando quase extinto na obscuridade. Desde aquele dia o mundo mudou duas táticas outra vez; em muitas partes da terra o protestantismo é abertamente reconhecido, e o Evangelho é pregado, mas o que se passa então? Então entra Satanás, e outro Barrabás, o Barrabás do mero cerimonialismo e da mera assistência a um lugar de culto é entronizado. “Sim, nós somos ortodoxos; muito ortodoxos, muito puros. Sim, nós somos religiosos, estritamente religiosos, assistimos à nossa casa de reunião, ou vamos na nossa igreja. Nunca estamos ausentes. Cuidamos de todas as formas, mas carecemos da vital piedade; não nascemos de novo; não passamos da morte para a vida. Contudo, isso bastará; contanto que sejamos tão bons como nossos vizinhos, e guardemos o ritual externo, o interno não importa”.
Isto, que é um detestável roubo da glória de Deus, isto que mata as almas dos homens, é o Barrabás da época presente. Um nome exterior para viver é estabelecido, e é recebido por aqueles que estão mortos; e muitos de vocês que estão presentes agora estão muito tranquilos e contentes, e ainda que não sentiram nunca ao vivificador Espírito de Deus, e ainda que não tenham sido lavados no sangue expiatório, estão satisfeitos porque tomam um assento em algum lugar de adoração; dão sua moeda de oferta, sua doação a algum hospital ou sua subscrição para algum bom propósito, esquecendo e descuidando de lembrar que todo o processo de limpeza do vaso e do prato jamais servirá de nada, a menos que a natureza interior seja renovada pelo Espírito do Deus vivente. Este é o grande Barrabás da época presente, e os homens o preferem antes que ao Salvador.
Eu creio que posso provar, mediante um simples fato, que isto é verdade: que o mundo realmente ama ao pecado mais do que ao Cristo. Você terá observado algumas vezes que alguns cristãos são inconsistentes, não é certo? Sua inconsistência não seria algo muito grande, se a julgasse em conformidade com as regras ordinárias de conduta. Mas você está muito consciente de que um homem mundano pode cometer qualquer pecado que queira sem receber maior censura; mas se o cristão comete um pecado muito pequeno, então alçam as mãos, e o mundo inteiro grita: “Vergonha!” Eu não quero mudar isso, mas quero dizer somente isto: “ali está o senhor Fulano de Tal, que se sabe que vive uma vida desenfreada, perversa, libertina; bem, eu não vejo que seja universalmente marginalizado ou reprovado, senão muito ao contrário, é tolerado pela maioria, e até admirado por alguns”.
Mas suponha que um cristão, um professante bem conhecido, houvesse cometido alguma falta que, comparada com isso, não fosse digna de menção, e o que lhe ocorre? “Publiquem-no! Publiquem-no! Souberam do que fez o senhor Fulano de Tal? Souberam desta hipócrita transgressão?” “Bem, de quê se tratou?” Você analisa: “bem, está mal, está muito mal, mas comparada com o que você diz dela, não é nada em absoluto”.
Portanto, o mundo mostra pela diferença entre a maneira com que julga ao homem religioso que professa, e a maneira com que julga aos seus, que realmente pode tolerar aos mais dissolutos, mas não pode tolerar aos cristãos. O cristão, por suposto, nunca se verá completamente libre de imperfeições, a inimizade do mundo não é evidentemente contra as imperfeições do cristão, pois pode tolerar maiores imperfeições em outros; a objeção será portanto contra o homem, contra a profissão que assumiu, e o curso que deseja seguir.
Vigiem cuidadosamente, amados, para que não lhes dar nenhuma oportunidade nesse sentido; mas quando verem que o mais leve erro é tomado e exagerado, nisto encontram uma clara evidência de que o mundo prefere a Barrabás ao invés dos seguidores do Senhor Jesus Cristo. Agora o mundo mudará seus diversos modos de tratar-nos, mas nunca amará a igreja mais do que o faz agora. Não esperamos ver ao mundo empurrado para cima para ver-se mais absorvido dentro da igreja. A união do mundo com a igreja nunca foi o propósito da nossa religião. O propósito de Cristo é reunir para Si um povo dentre os homens; não se trata do levantamento de todos, senão do chamamento de alguns; se trata de fazer com que os homens difiram; se trata da manifestação da graça especial e distinguidora, e da reunião de um povo que formou para Si.
Neste processo a moralidade é promovida, os homens são civilizados e melhorados, mas este é só indiretamente o propósito de Deus, e não seu fim imediato; o fim imediato do Evangelho é a salvação do povo que Ele ordenou para a vida eterna, e que portanto, em seu tempo, é conduzido a crer nEle. O mundo, até o fim, estará em inimizade com os verdadeiros crentes, como sempre esteve. Porque “não sois do mundo, antes eu os escolhi do mundo, por isso o mundo vos aborrece”. Isto será tão certo quando Cristo vier, como o é neste momento presente. Devemos esperá-lo; e quando nos enfrentarmos com o escárnio e perseguição, não nos surpreendamos como se algo estranho nos houvesse sucedido.


III. Vou observar, em terceiro lugar – Oh! Espero receber ajuda do alto – que O PECADO DE PREFERIR A BARRABÁS AO INVÉS DE CRISTO, FOI O PECADO DE CADA UM DE NÓS ANTES DA NOSSA CONVERSÃO.
Passem agora as páginas de seus diários pessoais, queridos amigos, ou voem sobre as asas da memória ao oco da pedra de onde foram arrancados. Oh, vocês que vivem perto de Cristo, não o desprezaram uma vez? Em qual companhia lhes dava mais prazer estar? Acaso não era a companhia das pessoas frívolas, não era a da gente profana? Quando se juntavam com o povo de Deus, sua prática era muito tediosa; se falavam de realidades divinas, ou de temas práticos, não os entendiam, e lhes percebiam problemáticos.
Posso ver no tempo a alguns que sei que são agora veneráveis crentes, mas que antes considerava como uma bruta moléstia quando os ouvia falar das coisas de Deus. Sobre o quê versavam nossos pensamentos? Não meditávamos muito sobre a eternidade; nem muito sobre Ele, que veio para libertar-nos do suplício dos tormentos do inferno.
Irmãos, Seu grande amor com o qual nos amou nunca foi introduzido em nossos corações como deveria; e mais, quando líamos a história da crucificação, não tinha mais efeito sobre nossa mente do que um conto comum. Não conhecíamos as belezas de Cristo; pensávamos em qualquer trivialidade antes que nEle. E quais eram nossos prazeres? Quando tínhamos o que chamávamos o disfrute de um dia, onde o buscávamos? Acaso ao pé da cruz? No culto do Salvador? Em comunhão com Ele? Longe disso; quanto mais pudéssemos nos afastar das associações piedosas nos sentíamos melhor.
Alguns de nós temos de confessar envergonhados de que nunca estávamos mais em nosso elemento do que quando estávamos desprovidos de consciência, quando a consciência havia cessado de acusar-nos e podíamos afundar-nos no pecado desenfreadamente. Qual era a nossa leitura então? Qualquer livro antes que a Bíblia: e se houvesse estado em nosso caminho algum livro que exaltasse a Cristo e o enaltecesse em nosso entendimento, haveríamos encurralado esse libro por ser demasiado árido para que nos pudesse agradar. Qualquer montão de insensatez encadernado em três volumes, qualquer literatura leve, e mais, talvez coisas piores, haveriam deleitado nossos olhos e nosso coração; mas os pensamentos do Seu eterno deleite até nós; os pensamentos de Sua paixão incomparável e agora de Sua glória no céu, nunca passaram por nossas mentes, nem podíamos suportar aos indivíduos que nos conduzissem a tais meditações.
Quais eram nossas aspirações? Cuidávamos do negócio, procurando fazer-nos ricos, famosos por nossos conhecimentos e admirados por nossa habilidade. Vivíamos para o eu. Se tínhamos alguma consideração pelos demais, e algum desejo de beneficiar a nossa raça, o eu sempre estava no fundo de tudo.
Não vivíamos para Deus; não podíamos dizer honestamente quando nos despertávamos nas manhãs: “espero viver hoje para Deus.” Pela noite, não podíamos ver a retrospectiva do dia, e dizer: “neste dia servimos a Deus”. Ele não estava em todos os nossos pensamentos. A quem rendíamos nosso melhor louvor? Louvávamos a Cristo? Não; louvávamos o talento, e quando estava associado com o pecado, seguíamos louvando da mesma forma. Admirávamos a aqueles que podiam ministrar mais plenamente a nossos próprios deleites carnais, e sentíamos o maior amor por aqueles que nos causavam maior dano. Acaso não é esta nossa confissão quando revisamos o passado? Acaso não acabo de ler a própria história da sua vida? Eu sei que li a minha. Ai! Lamentamos aqueles escuros dias nos quais nossa alma assediada perseguia qualquer forma de mal, mas não queria seguir a Cristo.
Haveria sucedido o mesmo conosco hoje, se a graça onipotente não tivesse estabelecido a diferença. Poderíamos esperar que o rio cessasse de correr ao mar, do que esperar que o homem natural navegasse contra a corrente de seus pecados. Poderíamos esperar que o fogo se tornasse água, ou que a água se tornasse fogo, do que esperar que o coração não regenerado amasse a Cristo alguma vez. Foi a graça poderosa que nos conduziu a buscar ao Salvador. E quando considerarmos nossas vidas passadas, será com sentimentos mesclados de gratidão pela mudança, e de tristeza por termos sido tão crassamente insensatos como para termos escolhido a Barrabás, e termos dito do Salvador: “Seja crucificado!”.
IV. E agora vou chegar à conclusão do sermão, que é: QUE HÁ INDUBITAVELMENTE MUITOS AQUI QUE NESTE DIA PREFERAM A BARRABÁS E NÃO AO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.
Primeiro, queridos amigos, permitam-me expor o vosso caso. Quero descrevê-lo honestamente, mas ao mesmo tempo, descrevê-lo de tal maneira que possam ver seu pecado nele; e enquanto estou fazendo isto, meu objetivo será debater com vocês, para o Senhor transformar a sua vontade.
Há muitos aqui, temo, que preferem o pecado antes de Cristo. Poderia dizer, sem necessidade de adivinhar, que eu sei que há alguns aqui que seriam seguidores de Cristo há muito tempo, mas preferiram a bebedeira. Não é sempre, não é a cada dia, não é nem sequer a cada semana, mas há ocasiões quando eles sentem como se devessem reunir-se com os amigos, e como resultado inevitável, regressam a casa intoxicados. Eles se envergonham deles mesmos; chegaram a expressar isto; chegaram tão longe como para orar a Deus pedindo graça para vencer seu hábito; mas depois de experimentar convicções durante anos, não avançaram até o momento. Uma vez pareceu como se tivessem vencido. Durante muito tempo houve uma abstinência desse vício, mas regressaram para a sua necessidade. Preferiram esse bestial vício degradante. Disse bestial? Insulto às bestas, pois não são culpáveis de vícios como esse. Eles preferem este vício degradante do que a Jesus. Ali está a bebedeira, a vejo refletida diante de mim com toda a sua insensatez, com sua avidez e sua imundícia; mas o homem escolhe tudo isso, e ainda que tenha conhecido mentalmente algo relativo à beleza e excelência de Cristo, virtualmente diz de Jesus: “Não a este homem, senão à embriaguez”.
Logo há outros casos, nos quais uma lascívia favorita reina suprema em seus corações. Os homens conhecem o mal do pecado, e têm uma boa causa para conhecê-lo; eles também conhecem algo da doçura da religião, pois nunca estão mais felizes do que quando se reúnem com o povo de Deus; e às vezes regressam para casa depois de um solene sermão, especialmente se faz referência ao seu vício, e sentem: “Deus falou à minha alma hoje e sou conduzido para um lugar mais alto”. Mas apesar disto, a tentação vem outra vez, e caem como caíram antes. Temo que há alguns de vocês a quem nenhum argumento convencerá jamais; ficaram tão firmes sobre este mal que será sua eterna ruína. Mas, oh! Pensem como se verá isto quando estejam no inferno: “Eu preferi a esse malvado Barrabás da lascívia, ao invés das belezas e das perfeições do Salvador, que veio ao mundo para buscar e salvar isso que estava perdido!”. E contudo, este é o caso, não de alguns, senão de uma grande multidão que ouve o Evangelho, e preferem o pecado e não o poder salvador desse Evangelho.
Pode haver algumas pessoas aqui, também, de outro tipo, que preferem as ganâncias. Se reduz a isto: se realmente se convertem no povo de Deus, não poderiam fazer no negócio o que agora pensam que o seu negócio requer que façam; se verdadeiramente se converteram em crentes, se tornarão, por suposto, honestos, mas seu negócio não renderia – dizem eles – se fosse manejado sobre princípios honestos; ou é um negócio de tal natureza – e há uns quantos desse tipo – que não deveriam se fazer em absoluto, e muito menos por parte de cristãos.
Aqui vem o ponto de inflexão. Tomarei o ouro, ou tomarei a Cristo? É certo que se trata de ouro enferrujado, e ouro sobre o qual há de sobrevir uma maldição. É o denário do néscio; talvez seja o lucro que é arrebatado das misérias do pobre; é dinheiro que não poderia suportar jamais a luz porque não foi obtido justamente; dinheiro que abrirá passo com fogo até suas almas quando estejam em seu leito de morte; mas os homens que amam o mundo dizem: “Não, Cristo não, me deem uma bolsa cheia e fora com Cristo”.
Outros, mais baixos ou menos honestos, clamam: “conhecemos Sua excelência, desejaríamos poder obtê-lo, mas não podemos obtê-lo nos términos que impliquem à renúncia de nossa muito amada ganância”. “Não a este, senão a Barrabás”.
Outros dizem: “eu anseio ser um cristão, mas então perderia a muitíssimos conhecidos e amigos. Em resumo, meus amigos não são bons para mim; são amigos que são muito afetuosos quando tenho uma boa quantidade de dinheiro para gastar com eles, são amigos que me louvam muito mais frequentemente quando me encontro no restaurante, quando me aprofundo em seus vícios. Sei que me fazem mal, mas” – diz o homem – “não poderia aventurar-me a me opor a eles. Um deles é tão língua solta, e pode dizer umas piadas tão prejudiciais que não gostaria de tê-lo contra mim, e há outro que ouvi dizer que põe apelidos tão incisivamente mordazes aos cristãos, e lhes assinala suas faltas de uma maneira tão sarcástica, que não poderia sofrer a crítica de sua língua, e, por isso, ainda que anseio ser um cristão, não poderei ser.
Dessa maneira preferes ser um servo da terra de labor, um escravo da língua do escarnecedor, antes que ser um homem livre, e tomar a cruz e seguir a Cristo. Preferes, digo, não simplesmente à maneira da alegoria, senão como um fato real, preferes a Barrabás do que ao Senhor Jesus Cristo.
Assim poderia multiplicar os exemplos, mas o mesmo princípio corre através de todos eles. Se há algo que lhes impeça de entregar seu coração ao Senhor Jesus Cristo, são culpáveis de levantar em sua alma um candidato de oposição ao Cristo, e vocês estariam escolhendo: “Não a este, senão a Barrabás”.
Permitam-me ocupar uns quantos minutos argumentando a causa de Cristo com vocês. O quê rejeitam de Cristo? Não estão conscientes das muitas coisas boas que recebem dEle? Estariam mortos se não fosse por Ele; e mais, pior que isso, estariam no inferno. Deus afiou o grande machado; a justiça, como um severo lenhador, esteve com o machado levantado, pronto para cortá-los como um estorvo que inutiliza a terra. Se viu uma mão que deteve o braço do vingador, e uma voz se escutou dizendo: “Deixe-a ainda este ano, até que eu cave ao redor dela e a abone”.
Quem foi o que apareceu justo então, em teu momento de necessidade extrema? Não foi outro senão esse Cristo, de quem pensas tão pouco que preferes à embriaguez ou o vício do que a Ele! Estás neste dia na casa de Deus, escutando um sermão que espero que provenha dEle. Poderias estar no inferno – pensa um instante nisso – com a esperança perdida, suportando em corpo e alma dores indizíveis. Que não estejas ali deveria te fazer amar e bendizer à Aquele que disse: “Livra-lo de descer à fossa”. Por quê haverias de preferir teu próprio lucro e tua autocomplacência do que a esse Ser bendito a quem deves tanto? A gratidão comum deveria te conduzir a negar-te algo a ti mesmo por Ele, que tanto se negou a Si mesmo para poder te abençoar.
Acaso te ouço dizer que não podes seguir a Cristo porque Seus preceitos são demasiados severos? Se você mesmo tivesse que julgá-los, qual é o ponto ao que lhe encontrarias alguma falha? Te negam teus pecados, digamos que te negam tuas desventuras. De fato não te permitem que te arruínes a ti mesmo. Não há nenhum preceito de Cristo que não seja para o teu bem, e não há nada que te proíba, que não o condene baseado no princípio que te causaria um dano se te entregasses a isso.
Mas ainda supondo que os preceitos de Cristo sejam muito severos, não seria melhor que te submetesses a eles em lugar de te arruinares? O soldado se submete implicitamente à ordem do capitão, porque ele sabe que sem disciplina não pode existir vitória, e o exército inteiro poderia ser destroçado se houvesse falta de ordem. Quando o marinheiro arriscou sua vida para penetrar através do denso gelo do norte, o encontramos dando seu consentimento a todas as ordens e regulamentações da autoridade, e suportando todas as durezas da aventura, porque é movido pelo desejo de ajudar em um grande descobrimento, ou por estímulo de uma grande recompensa.
E em verdade as pequenas abnegações para as quais Cristo nos chama, serão abundantemente recompensadas pelo prêmio que Ele oferece; e quando estão em jogo a alma e seus interesses eternos, bem podemos tolerar estas inconveniências temporais, se podemos herdar a vida eterna.
Me parece que te ouço dizer que gostarias de ser um cristão, mas que não há felicidade alguma nisto. Eu te diria sem nenhuma falsidade sobre este ponto e te diria a verdade se assim fosse, mas declaro solenemente que há mais gozo na vida cristã do que há em qualquer outra forma de vida, que se tivesse que morrer como um cão, e não houvesse algo além mais, preferiria ser um cristão. Poderias apelar aos mais indigentes entre nós, a aqueles que estão mais enfermos e são mais desprezados, e te diriam o mesmo. Não há uma só mulher do campo, que esteja tremendo dentro de seu velho abrigo rubro e gasto junto a uma pequena fogueira, cheia de reumatismo, com uma dispensa vazia e um corpo envelhecido, que trocaria seu lugar com o mais elevado e o maior de vocês se tivesse que renunciar sua religião; não, ela te diria que seu Redentor é um maior consolo para ela do que todos os luxos que pudessem ser amontoados sobre a mesa do homem rico. Cometes um erro quando sonhas que meu Senhor não faz bem-aventurados a Seus discípulos; as pessoas que põe sua confiança em Cristo são bem-aventuradas.
Todavia me parece que te ouço dizer: “sim, tudo isso está muito bem, mas ainda assim prefiro o prazer presente”. Não estás falando isto como uma criança; e mais, não falas como um néscio, pois o que é o prazer presente? Quanto tempo dura essa palavra “presente”? Se pudesses contar com dez mil anos de júbilo, poderia estar de acordo contigo em alguma medida, mas ainda nisso teria pouca paciência contigo, pois o que serão dez mil anos de diversão no pecado, comparados com milhares milhões de anos de castigo pelo pecado? Vamos, ainda sendo a maior possível, tua vida será muito breve. E não estás consciente de que o tempo voa mais rapidamente a cada dia? Conforme envelheces, não te dá a impressão que viveste um tempo mais curto ao invés de mais longo? E ao fim, se pudesses viver até chegar a ser tão velho como Jacó, dirias: “pouco e maus foram os dias da minha vida, pois dão a impressão de serem poucos apesar de serem numerosos”.
Tu sabes que esta vida não é senão um momento, e logo acaba. Veja os cemitérios, e observe como estão povoados de verdes montes. Recorda aos teus próprios companheiros, como um a um foram falecendo. Eles eram tão firmes e fortes como você, mas se foram como uma sombra. Vale a pena ter este breve espaço de prazer e logo estar submergido em eterna dor? Te suplico que respondas a esta pergunta. Vale a pena escolher a Barrabás por motivo de alguma ganância temporal que possa proporcionar-te, e renunciar a Cristo, e assim renunciar aos eternos tesouros de gozo e felicidade que estão a Sua destra para sempre?
Eu gostaria de poder lhes fazer estas perguntas como devem ser feitas. Se requer a impetuosa voz seráfica de Whitefield, ou a suplicante língua de Richard Baxter, para suplicar-lhes, mas contudo, penso que falo com homens racionais; e caso se tratasse de um assunto de aritmética, não necessitaria das minhas palavras. Não te pedirei que calcules teu prognóstico de vida mais otimista – digamos oitenta anos – e preenchas esse lapso com todos os prazeres que possas imaginar; supondo que gozes de boa saúde; sonhe que não tens preocupações de negócios, e que possui tudo o que o coração possa desejar, anda e senta-te no trono de Salomão, se assim o queres, e contudo, o que terás para dizer quando tudo acabe? Vendo em retrospectiva, poderias dizer algo mais do que Salomão disse, quando afirmou: “Vaidades de vaidades, tudo é vaidade,” e “Tudo isso é vaidade e aflição de espírito”? Quando houveres calculado essa suma, posso pedir-te que calcules quanto haverás ganhado, se para possuir esta vaidade, terás renunciado à felicidade eterna, e incorrido na condenação eterna?
Crês na Bíblia? Respondes: “sim”. Bem, então, assim há de ser. Muitos homens professam crer na Escritura, e contudo, quando chegam ao ponto relativo a se creem de verdade na condenação eterna e na bem-aventurança eterna, há uma espécie de algo dentro que sussurra: “isso está no Livro, mas ainda assim não é real, não é válido para nós”. Façam-no válido para vocês, e quando tiverem feito isso, e tiverem provado claramente que devem estar na bem-aventurança ou na condenação, e que aqui vão ter a Barrabás como seu amo ou ter a Cristo como seu Senhor, então, digo, como homens sãos, julguem qual é a melhor escolha, e que a poderosa graça de Deus lhes dê sanidade espiritual para fazer a escolha correta, mas isto sim sei: nunca farão isso a menos que esse poderoso Espírito – que é o único que nos guia a escolher o bom, e rejeitar o mal – venha sobre vós e os conduza a acudir rapidamente às feridas de um Salvador.
Creio que não necessito prolongar o culto agora, mas espero que vocês o prolonguem em suas respectivas casas, refletindo sobre este assunto. E me permitem fazer-lhes pessoalmente uma pergunta a todos ao retirarem-se: a quem vocês pertencem? De qual lado vocês estão? Não há posições neutras; não há pontos médios: ou servem a Cristo ou servem a Belial; ou estão com o Senhor ou estão com Seus inimigos. Quem está do lado do Senhor neste dia? Quem? Quem está por Cristo e por Sua cruz; por Seu sangue, e por Seu trono? Quem, por outro lado, são seus inimigos? Todos os que não estejam por Cristo são contados entre Seu inimigos. Não sejam contados mais entre eles, pois o Evangelho vem a vocês com voz convidativa: “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo”. Que Deus te ajude a crer e a apoiar-te nEle agora; e se confias nEle, és salvo agora, e serás salvo para sempre. Amém.
ORE PARA QUE O ESPIRITIO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.



Sermão nº 595— BARABBAS PREFERRED TO JESUS-  do volume 10 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit,


                                               LucioFidalgo

terça-feira, 13 de março de 2012

O DIA QUE O SOL PAROU !





                                                O DIA QUE O SOL PAROU !

Cientistas da NASA, a agência espacial norte-americana, no início da década de 80, em Green Belt, Maryland, dedicaram-se a uma exaustiva pesquisa, com o uso dos mais modernos recursos da Informática, para estabelecer a posição exata do Sol, da Lua e dos diversos planetas do nosso sistema solar durante o milênio.
Harold Hill, presidente da companhia de engenharia Curtis, com sede na cidade de Baltimore, também em Maryland, relata sua experiência no cargo de consultor do programa espacial daquele período.
"Precisamos desses dados para que satélites possam ser lançados ao espaço para missões de exploração de novos corpos celestes sem que entrem em rota de colisão com qualquer um deles. Como pretendemos construir foguetes não-tripulados com autonomia para muitas e muitas décadas no espaço, precisamos traçar sua trajetória com precisão para que as gerações futuras venham a receber e analisar os dados enviados por eles. Nós e os cientistas da NASA, descobrimos que falta um dia no calendário universal. Envolvido nesta pesquisa, pude presenciar uma descoberta fantástica: falta um dia na história do universo!"
Eis como tudo aconteceu: Os engenheiros da NASA colocaram os dados no computador para que ele determinasse a exata posição dos astros, tanto no passado quanto no futuro, e então surgiu um impasse. O computador subitamente interrompeu o programa e mostrou na tela um aviso de que havia algo errado nos números que lhe serviram de base para os cálculos. Entretanto, havia entre eles um evangélico que falou sobre a história de Josué. Os engenheiros da IBM foram imediatamente chamados para verificação de um possível defeito e, após um cuidadoso exame de toda a rede de informática, garantiram que estava tudo em ordem. Foi então, que esse membro evangélico que fazia parte da equipe, lembrou-se de que Josué, segundo os textos sagrados, certa ocasião ordenara ao Sol que parasse e contou o episódio aos seus colegas. Ninguém acreditou, a princípio, pois todos os outros cientistas eram acostumados a fatos concretos. Assim, eles o desafiaram a provar o que dizia. O cientista, ao ser desafiado, pegou a Bíblia e mostrou Josué 10:12 "Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus nas mãos dos filhos de Israel; e disse, na presença dos israelitas: Sol, detém-te sobre Gibeom, e tu, lua, no vale de Aijalom". Explicou-lhes que Josué se encontrava rodeado por inimigos e se a  noite caísse, eles poderiam sobrepujá-lo. Pediu, portanto, a Deus que o Sol parasse, e assim aconteceu, o Sol não se pôs o dia todo.
Depois destas explicações, resolveram colocar esses novos dados nos computadores para ver se era realmente o dia que faltava e, voltando no tempo, achamos uma resposta aproximada. O período que faltava no tempo por causa do pedido de Josué era de 23 horas e 20 minutos; não era, portanto, um dia inteiro, conforme garantiam os computadores da NASA. Com esse resultado, os cientistas voltaram ao livro de Josué e acharam o capítulo 10 v.13: "E o Sol se deteve, e a Lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos... O sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro". Bem, o texto bíblico confirmava que não era exatamente um dia inteiro e esse achado foi muito importante, mas ainda assim continuavam em dificuldades, porque faltavam 40 minutos, e não é possível realizar cálculos para séculos futuros com um erro desse tipo.
Após algum tempo, aquele cientista evangélico se lembrou de outra passagem bíblica que mencionava outro episódio a respeito do sol. Dessa vez o astro maior teria regredido no tempo. Todos ficaram atônitos... absolutamente mudos! Novamente o primeiro impulso foi de descrédito, porém, utilizando-se de um programa específico para consultas bíblicas, chegaram ao seguinte texto: II Reis 20: 8 à 11 - "Ezequias disse a Isaías: Qual será o sinal de que o Senhor me curará, e de que ao terceiro dia subirei à casa do Senhor? Respondeu Isaías: Ser-te-á isto da parte do Senhor como sinal de que Ele cumprirá a palavra que disse: Adiantar-se-á a sombra dez graus, ou os retrocederá? Então disse Ezequias: É facil que a sombra adiante dez graus; tal, porém, não aconteça, antes retroceda dez graus. Então o profeta Isaías clamou ao Senhor; e fez retroceder dez graus a sombra lançada pelo sol declinante no relógio de Acaz".
Ficaram todos quietos naquele momento. A incredulidade por causa daquilo que é concreto foi fulminada pelas palavras de um livro milenar, muitas vezes ignorado. Dez graus são exatamente 40 minutos que, somados às 23 horas e 20 minutos do tempo utilizado por Josué, formam precisamente as 24 horas (um dia) faltantes em nossos cálculos.
(Texto extraído de depoimento do Dr. Harold Hill e adaptado pela Revista Plenitude nº13 - enviado por Paulo Henrique Vieira).


ATENÇÃO:

EM BUSCA DA VERDADE, SEM ABALAR A FÉ!

Deus parou o Sol?
por Bert THompson, PhD

No décimo capítulo do Velho Testamento do Livro de Josué, está relatado que o Sol "parou". Circula, com freqüência, a história de que cientistas da NASA, usando computadores para calcular as órbitas da Terra e do Sol, encontraram o que seria um "dia perdido". Depois de muitos exames, esses cientistas usaram seus computadores para descobrir o dia que faltava, provando que o registro bíblico é correto. Essa história é verdadeira?

De tempos em tempos, histórias como essa que foi descrita acima aparecem – em boletins e publicações religiosas ou mesmo na Internet – como se fossem factuais e verdadeiras. Não há dúvidas de que aqueles que a propagaram a conhecem intimamente e a têm como seu último baluarte de defesa da Bíblia contra as fundas e flechas dos infiéis. Contudo, ela não é verdadeira. As investigações revelam os detalhes que se seguem.

Histórias similares têm circulado por mais de meio século. No seu livro de 1936 – "A Harmonia da Ciência e Escritura", Harry Rimmer dedicou o último capítulo inteiro à "Moderna Ciência e o Longo Dia de Josué". Nessa discussão, Rimmer reconta a história bíblica de como Deus fez o Sol parar (Josué 10), e então faz as seguintes declarações concernentes ao milagre: "O testemunho final da ciência é que tal dia está faltando no registro do tempo. Por mais que o tempo se prolongue, o registro deste dia deve permanecer. O fato é atestado por eminentes homens de ciência, dois dos quais eu cito aqui". (1936, p. 280)

Dr. Rimmer então menciona dois cientistas – Sir Edwin Ball, um astrônomo britânico, e Charles A. I. Totten, um professor de Yale. Ele informa ter sido Ball o primeiro a noticiar que "quarenta e quatro horas foram perdidas no tempo solar". Rimmer então faz a pergunta: "Para onde eles foram, o que foi que causou esse estranho lapso, e como ele aconteceu? (p. 280). Rimmer então oferece o que ele chamou de sumário do livro de Totten onde, ele diz, a informação poderia ser encontrada para provar exatamente como o dia perdido foi descoberto. Rimmer dá até o dia e o mês exatos no qual a batalha de Josué foi travada – Quarta-feira, 22 de Julho (p.226).

Antes de responder a questão de que os cientista da NASA alegadamente descobriram o "dia perdido" de Josué, deixe-me fazer várias observações sobre esta antiga versão (da qual a mais nova obviamente foi adaptada – com considerável embelezamento).

Primeiro, Rimmer especificamente declara que está fazendo uma citação de Ball e Totten, apesar de nenhuma das declarações que fez terem sido colocadas entre aspas. Segundo, o livro de 1890 que Totten escreveu ("O Longo Dia de Josué e o Relógio do Sol de Ahaz") nunca foi citado por Rimmer, o que parece um pouco estranho, considerando que Rimmer devotou um capítulo inteiro sobre o assunto no seu próprio livro.

Terceiro, não há referências bibliográficas de Rimmer sobre os trabalhos de Ball e Totten – novamente pouco usual, uma vez que Rimmer baseia toda sua argumentação na validade dos declarações daqueles autores.

Quarto, inúmeros outros escritores têm feito sérios esforços para determinar a validade da afirmação de Rimmer, tanto quanto aquelas de Ball e Totten, mas sem sucesso. Por exemplo, Bernard Ramm, no livro "A Visão Cristã da Ciência e das Escrituras", discute o ponto-de-vista de Dr. Rimmer e sua referência a Totten. Ramm incluiu suas conclusões pessoais considerando a documentação oferecida por Rimmer, Totten e Ball nomenclatura bem escolhida. Ele observou: "Isso eu não fui capaz de verificar para minha própria satisfação… Dr. Kulp tentou checar essa teoria em Yale [empregador de Totten] e na Inglaterra [residência de Sir Edwin Ball], e não encontrou nada que verificasse isso". (1959, página 109 a 117).

Não há dúvidas que o próprio Rimmer acreditou na veracidade da história. Mas a documentação que deveria ter servido como prova estava, seriamente e obviamente, faltando.

Como tal história se originou é muito mais difícil de saber do que como ela circula. Quando uma história é "corroborada" com o nomes de pessoas de credibilidade e fatos relevantes, o povo não se preocupa em investigá-la. Uma vez aceita, ela então é usada no que o crédulo na Bíblia vê como um justa defesa da palavra de Deus.

Com todas as evidências agora disponíveis, a história de Ball, Totten e Rimmer simplesmente não são verdadeiras, e não podem mais ser usadas nem em defesa da Bíblia nem na defesa da palavra de Deus. O mesmo pode ser dito acerca da versão moderna da história. Novamente, alguns fatos anteriores são necessários. Quando o relato, da maneira como fez o Dr, Rimmer, foi publicado pela primeira vez, causou aparentemente grande excitação, e foi aceita sem contestação por aqueles que estavam ansiosos em mostrar como a ciência "comprova" uma verdade bíblica. Depois que essa excitação inicial diminuiu, a história foi esquecida, ou deixada de lado, e eventualmente relegada na pilha de relíquias da história. Sua permanência lá, contudo, foi breve. Alguém (até agora ninguém sabe quem) redescobriu a história, tirou fora a poeira, deu a ela algum embelezamento (sem dúvida para fazê-la mais de acordo com os conhecimentos científicas modernos), colocou nomes (de indivíduos, empresas e cidades), e então, intencionalmente, embutiu nela referência a uma agência governamental bastante popular, que foi/é bastante conhecida pelo público (a NASA – Agência Nacional de Aeronáutica e Espaço). Com a reedição da história agora completa, colocou nela uma credibilidade que poucos pensaram em duvidar ou questionar.

A versão moderna da história sugere que cientista da NASA, no Goddard Space Flight Center, em Greenbelt, Maryland, estavam usando computadores sofisticados para plotar posições do Sol, da Lua e outros planetas, 100, 1000 anos no futuro, para calcular as trajetórias de naves espaciais. Subitamente os computadores pararam completamente. Porque desligaram, eles tinham descoberto o "dia perdido" no tempo. Os técnicos não sabiam como corrigir o problema. Mas um dos cientistas presentes, havia freqüentado a escola dominical quando era criança, e lembrava-se da história na qual Deus fez o Sol parar por aproximadamente um dia. Quando ele sugeriu isso como uma possível solução, os outros cientistas o ridicularizaram. Contudo esses mesmos cientistas abriram a Bíblia em Josué 10 e leram a história.

Os técnicos então alimentaram os computadores com os novos dados (cuidadosamente fabricados no "dia perdido" de Josué), e as máquinas uma vez mais passaram a funcionar perfeitamente — ou quase. Os computadores subitamente pararam, mais uma vez, porque eles não haviam descoberto um dia completo; alguma coisa estava faltando. Aparentemente (assim diz a história) os computadores encontraram somente 23 horas e 20 minutos. Em outras palavras, 40 minutos ainda estavam faltando. Mas o cientista da escola dominical sugeriu a resposta a esse enigma. Ele lembrou-se que na Bíblia, em 2 Reis 20, havia uma narrativa em que o Rei Ezekias, tendo sido prometida a suspensão da sua morte, teria pedido um sinal do céu. Deus então fez o Sol se mover dez graus para trás – ou exatamente 40 minutos! Essa informação foi colocada nos computadores, e a partir de então eles passaram a funcionar normalmente.

Essa mentira foi amplamente divulgada na década de 60 e início de 70 como resultado dos esforços de Harold Hill, então presidente da Curtis Engine Company em Halenthorpe (Baltimore), Maryland. No seu livro de 1974, "Como viver como filho de um rei", Hill devotou um capítulo inteiro à estória (págin
as 65-77), e explicou como ela foi difundida. Ele declarou que na ocasião falou para estudantes secundaristas e universitários sobre assuntos relacionados à Bíblia e à ciência, e que a estória do "dia que faltou" da NASA foi uma das que ele falou com mais freqüência (páginas 65-66). De alguma maneira (mesmo Hill nunca soube como), Mary Kathryn Bryan, uma colunista do Evening World, de Spencer, Indiana, recebeu um relato por escrito da estória de Hill e o publicou em sua coluna.

Mais tarde, Hill observou, "vários noticiários pegaram a estória e ela apareceu em centenas de lugares" (página 69, no original). Ao relato, sem dúvida, foi proporcionado uma certa quantidade de credibilidade embutida, quando Hill sugeriu, relativamente ao programa espacial em Goddard: "Eu estava envolvido desde o início, através de arranjos contratuais com minha empresa" (1974, página 65). [Quando isso foi verificado, viu-se que a conexão de Hill com a NASA era, na melhor das hipóteses, tênua; sua empresa nunca teve nenhum contrato para prestar serviços em geradores elétricos em nenhuma agência governamental. Ele nunca foi contactado de nenhuma maneira para missões de operação ou planejamento].

Todos os esforços para confirmar a origem da estória falharam. Depois que um artigo sobre o assunto apareceu, em Abril de 1970, no "Bible-Science Newsletter", vários leitores da revista escreveram a Hill. Num artigo subseqüente, a revista fez menção ao fato de que, depois que o artigo foi publicado em 1970, alguns leitores finalmente receberam uma carta de Hill na qual ele declarava não ter sido o criador da estória. No seu livro publicado em 1974, ele confessa não haver testemunhado o incidente da NASA pessoalmente, e afirmou ainda que não podia se lembrar quando nem onde foi a primeira vez que a ouviu, mas insistiu que "minha incapacidade de fornecer documentação do incidente do ‘dia que faltou’, de maneira nenhuma diminui sua autenticidade" (página 71).

O artigo publicado na edição de Julho de 1989 na revista "Bible-Science Newsletter" reportou que

Dr. Bolton Davidheiser escreveu para o escritório da NASA em Greenbelt, Maryland, onde o fato supostamente ocorreu. Eles responderam que não sabiam nada sobre o senhor Harold Hill e não podiam corroborar as referências sobre o "dia perdido"… No concludente parágrafo da carta da NASA lê-se: ‘Apesar de fazermos uso de posições planetárias como fator necessário para a determinação das órbitas das naves espaciais em nossos computadores, não descobrimos que nenhum astronauta ou cientista espacial em Greenbelt estivesse envolvido na estória do "dia perdido" atribuída ao Sr. Hill’ (Bartz, 1989, página 12).

A origem da estória é dúbia na melhor das hipóteses (e espúria na pior). Os fatos, onde verificáveis, estão incorretos. E aqueles alegadamente envolvidos no encontro do "dia perdido" de Josué admitem não saberem nada sobre tais eventos. Outrossim, qualquer pessoa que afirme que os computadores, de alguma maneira, podem "encontrar" um dia "perdido" erra por não entender como os computadores funcionam. Como comentou Paul Bartz:

"Computadores não são máquinas mágicas que podem adivinhar coisas que estão escondidas das pessoas. Maravilhosas como elas são, estão limitadas aos conhecimentos que damos a elas. Computadores dependem de nós para adquirirem conhecimento. Enquanto um computador pode ser usado para gerar um calendário, desde hoje até uma data distante no passado, o que não é uma prática incomum, um computador não pode nos dizer se algum tempo está faltando ou não. Na verdade, o computador teria que ser programado com todo tipo de ajustes, considerando várias mudanças no calendário ocidental, sobre os últimos dois mil anos. Simplificando, a estória é tecnicamente impossível, não interessando quão sofisticado seja seu computador" (1989, página 12).

A única conclusão que se pode chegar, respeitando os fatos disponíveis, é que essa estória é falsa e não deve ser divulgada. Nós prestamos um desserviço à palavra de Deus quando tentamos "defendê-la" com estórias como essa que, com um pouco de senso comum e uma pequena quantidade de pesquisa, pode ser mostrada não ter nenhum fundamento factual, qualquer que seja ele.

***

REFERÊNCIAS:

Bartz, Paul (1989), "Questions and Answers," Bible-Science Newsletter, 27[7]:12, July.
Hill, Harold (1974), How to Live Like a King’s Kid (South Plainfield, NJ: Bridge Publishing).
Ramm, Bernard (1954), The Christian View of Science and Scripture (Grand Rapids, MI: Eerdmans).
Rimmer, Harry (1936), The Harmony of Science and Scripture (Grand Rapids, MI: Eerdmans).
Totten, Charles A.L. (1890), Joshua’s Long Day and the Dial of Ahaz (New Haven, CT: Our Race Publishing Co.).

                                                LucioFidalgo

Parte ( 2 ) Moisés escreveu mesmo o Pentateuco?

                                      Moisés Escreveu mesmo o Pentatteuco?         




  Até pouco tempo atrás, afirmava-se que a invenção do alfabeto teria ocorrido pelos séculos 12 ou 11 a.C., sendo esse argumento apresentado para “provar” que Moisés não podia ter escrito o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), visto que em seu tempo não haviam ainda inventado a arte de escrever. No entanto, escavações arqueológicas nas ruínas da cidade de Ur, na antiga Caldeia, têm comprovado que ela era uma metrópole altamente civilizada. Nas escolas de Ur, os meninos aprendiam leitura, escrita, Aritmética e Geografia. Três alfabetos foram descobertos: junto do Sinai, em Biblos e em Ras Shamra, que são bem anteriores ao tempo de Moisés (1500 a.C.).



Estudiosos sustentam que Moisés escolheu a escrita fonética para escrever o Pentateuco. O grande arqueólogo William F. Albright datou essa escrita de início do século 15 a.C. (tempo de Moisés). Interessante é notar que essa escrita foi encontrada no lugar onde Moisés recebeu a incumbência de escrever seus livros (Êx 17:14). Veja o que disse Merryl Unger sobre a escrita do Antigo Testamento: “A coisa importante é que Deus tinha uma língua alfabética simples, pronta para registrar a divina revelação, em vez do difícil e incômodo cuneiforme de Babilônia e Assíria, ou o complexo hieróglifo do Egito.”


Deus sempre sabe mesmo o que faz! Pense bem: se o alfabeto tivesse sido realmente inventado pelos fenícios, cuja existência foi bem posterior à de Moisés, e se as escritas anteriores – hieroglífica e cuneiforme – foram decifradas apenas no século 19, como poderia Moisés ter escrito aqueles livros? Se o tivesse feito, só poderia usar os hieróglifos, escrita na qual a Bíblia diz que Moisés era perito (At 7:22). Nesse caso, o Antigo Testamento teria ficado desconhecido até o século 19, quando o francês Champollion decifrou a antiga escrita egípcia. Acontece que, no princípio do século 20, nos anos 1904 e 1905, escavações na península do Sinai levaram à descoberta de uma escrita muito mais simples que a hieroglífica – e era alfabética! Com essa descoberta, a origem do alfabeto se transportava da época dos fenícios para a dos seus antecessores, séculos antes, os cananitas, que viveram no tempo de Moisés e antes dele.


Portanto, foram esses antepassados dos fenícios que simplificaram a escrita. E passaram a usar o alfabeto em lugar dos hieróglifos, isto é, sinais que representam sons ao invés de sinais que representam ideias. Moisés, vivendo 40 anos na região de Mídia, onde essa escrita era conhecida, viu nela a escrita do futuro, e passou a usá-la por duas grandes razões: (1) a impressão grandiosa que teve de usar uma língua alfabética para seus escritos e que se compunha de apenas 22 sinais bastante simples comparados com os ideográficos que aprendera nas escolas do Egito; e (2) a compreensão de que estava escrevendo para seu próprio povo, cuja origem era semita como a dos habitantes da terra em que estava vivendo, e que não eram versados em hieróglifos por causa de sua condição de escravos.*


(Michelson Borges, jornalista e mestrando em teologia pelo Unasp)


(*) De acordo com Siegfried Schwantes, Ph.D em línguas semíticas pela Johns Hopkins University, o vocabulário da última parte do livro de Gênesis e do livro de Êxodo evidencia a influência da língua egípcia sobre o hebraico. A palavra para “linho fino”, por exemplo (Gn 41:42), é shesh, e curiosamente em egípcio é shash. Outro exemplo é a palavra “selo” (Gn 38:18, 25). Na forma hebraica é hotam, enquanto seu equivalente egípcio é htm. Um último exemplo (para ficar apenas com três) é o vocábulo hebraico taba’at, cujo significado é “anel” ou “sinete”, e parece ser derivado do termo egípciodb’t. “É uma palavra rara e denota familiaridade do autor com o meio egípcio”, escreveu Schwantes em seu livro Arqueologia (São Paulo: IAE, 1988), p. 28. Estudos mais amplos nessa área têm sido produzidos por James Hoffmeier, do Trinity Evangelical Divinity School, nos Estados Unidos.
                                                       LucioFidalgo

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pentateuco ( 1 ) parte: historicamente confiável?

                              Pentateuco: historicamente confiável? 





Recentemente, a revista Aventuras na Históriapublicou matéria sobre a Arca da Aliança com título “O último mistério”. Tiago Cordeiro, autor do artigo, em determinado momento afirma que “a Torah (Pentateuco) foi elaborada provavelmente entre os séculos VII e V a.C., muito tempo depois dos eventos narrados”. O assunto não pára por aí. Num curso de egiptologia numa renomada faculdade do Brasil, o professor disse que comparava o Antigo Testamento (AT) a uma brincadeira de telefone sem fio! Por outro lado, quando lemos esta porção bíblica, o Pentateuco, encontramos algumas informações históricas dignas confirmadas pela arqueologia e que ajudam a datá-la em determinado momento da história.

Vamos por partes. A língua em que foi escrito o pentateuco foi o hebraico. Algumas palavras usadas pelo seu autor são claramente egípcias. O termo "selo", por exemplo, que aparece em Gênesis 41:42 em hebraico é hotam, já em egípcio é hetem. A palavra hebraica, na passagem referida acima, para linho fino na língua do AT é shesh e em egípcio é shash. Não são apenas esses casos, existem outros mais. É importante mencionarmos que esse intercâmbio entre essas duas línguas não aparece nos outros livros do AT. 

A evidência não para por aí. Diversos nomes mencionados na narrativa hebraica são claramente egípcios. O próprio nome Moisés é derivado do verbo egípcio mase (nascer). O nome Merari (Nm 3:17) vem da palavra egípcia mer, que significa amado. Hofni e Finéias também são nomes egípcios, sendo este último relacionado com um sacerdote no país dos faraós.

Somos levados a duas conclusões até agora: (1) o autor do pentateuco conhecia bem a língua egípcia e, segundo a tradição judaico-cristã, esse autor foi Moisés (cf. At 7:22; (2) os nomes egípcios entre o povo de Israel sugerem que eles, os israelitas, estiveram ali em algum período do passado. Se não fosse assim, como esses nomes surgiriam naquela nação? Curiosamente, o apogeu da língua egípcia se deu na metade do II milênio a.C., entre os séculos XVI e XIV a.C., não em torno dos séculos VII – V a.C. Se os cinco primeiro livros da Bíblia foram escritos nessa época, por que existe neles similaridade de nomes e palavras egípcias?

Diversos outros nomes importantes para o início da nação israelita são bem documentados em fontes arqueológicas. O nome Jacó, por exemplo, aparece em conexão com o nome de um chefe hykso (Ya‘qub-el), num texto do século XIII a.C. encontrado em Chagar-Bazar, na Alta Mesopotâmia. Já o nome Abraão, o pai dos patriarcas, surge entre os mais de 15 mil tabletes encontrados nas ruínas da antiga cidade de Ebla, na Síria. A grafia Aba-am-ra-am é muito próxima do hebraico ‘avraham. Os tabletes encontrados ali por Paolo Mathiae e G. Petinatto são datados seguramente entre 2500 e 2000 a.C.

O nome Terah, o mesmo nome do pai de Abraão, aparece em textos assírios do fim do III milênio a.C., com a grafia Til Turakhi. O nome de alguns dos filhos de Jacó, como por exemplo Benjamin, possui correspondente acadiano (binu-yamin, povos do sul) e é também atestado no início do II milêncio a.C. Já Aser e Issacar são encontrados numa lista egípcia do XVIII século a.C. De forma significativa, esses nomes diminuem sua freqüência ou desaparecem por volta dos séculos VII – V a.C. Isso é no mínimo intrigante! 

Diante dessas evidências, somos levados a considerar alguns pontos: (1) Os nomes dos patriarcas bíblicos mencionados no livro de Gênesis são atestados em diversos documentos antigos, mas isso não prova que o Abraão e o Jacó bíblicos existiram; (2) esses nomes eram comuns na época em que o AT menciona a existência dessas pessoas, não nos séculos VII - V a.C. Se o AT é comparado ao telefone sem fio, pelo menos nesse ponto a brincadeira não funcionou e não teve graça, já que seu conteúdo chegou idêntico para nós!

Esse é o limite da arqueologia bíblica. Ela consegue recriar um pano de fundo histórico coerente com aquele que a Bíblia narra. Por outro lado, ela não prova a ocorrência de fatos que demandam fé. Uma pergunta porém não quer calar: Se o ambiente histórico do AT é digno de confiança, por que os eventos que relacionam o homem com seu Criador não seriam? Algo a ser pensar.



                                                       LucioFidalgo